Por que tivemos o surto de micobacteriose no Brasil?
No Laboratório de Micobactérias da UFRJ foram feitos estudos que confirmaram a tolerância da Mycobacterium massiliense ao glutataldeído, fator importante para o surto de micobacteriose que tivemos no Brasil. Esta descoberta tem implicações importantes nos processos de esterilização e desinfecção de artigos médico-hospitalares, além da instituição da melhor terapêutica empírica na suspeita destes casos.
A ocorrência de surtos de infecções causadas por micobactérias, relacionadas aos cuidados com a saúde (hospitalares e não hospitalares), tem sido constatada em várias cidades brasileiras desde 1998. Foram reportados à ANVISA, entre o período de 1º de janeiro de 2003 a 28 de Fevereiro de 2009, 2128 casos de infecções ocorridos em hospitais públicos e privados, clínicas de cirurgia plástica, oftalmológicas, de acupuntura, de estética e, recentemente, em unidade de vacinação (http://www.anvisa.gov.br/hotsite/hotsite_micobacteria/notificados.pdf ).
Em função da detecção da espécie M. massiliense em diferentes cidades brasileiras, foi realizada a análise de sua clonalidade, por eletroforese em campos alternados. Os resultados obtidos indicam tratar-se de um clone predominante em todo o Brasil, ou seja, um mesmo clone causou infecções em diferentes estados e cidades brasileiras. Uma das particularidades deste clone é a tolerância ao glutaraldeído a 2%, mesmo após 10 horas de exposição. A tolerância ao glutaraldeído não é o único fator desencadeante dos surtos, pois há diversos casos de infecções causadas por espécies não tolerantes ao glutaraldeído. Tal fato indica que a remoção inadequada de resíduos orgânicos, antes da exposição dos instrumentais cirúrgicos ao biocida, é uma condição necessária para que as bactérias possam aderir aos instrumentos cirúrgicos e sobreviver à ação do glutaraldeído.
Os fatores que levaram à disseminação de um mesmo clone em diversas regiões do Brasil ainda não estão esclarecidos. A cepa INCQS 594, pertencente ao clone denominado BRA100, está depositada na coleção de culturas do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde. A espécie M. massiliense era classificada até 2004 como M. abscessus; portanto é possível que uma parte significativa da literatura científica que descreve infecções e surtos causados por M. abscessus possa corresponder a M. massiliense.