Segurança do paciente: Foram divulgados os dados da primeira pesquisa sobre erros em medicina no país. Erros relativos ao diagnóstico são 9,5%
A primeira pesquisa sobre erros em medicina realizada no Brasil mostrou que, em cada dez imprevistos ocorridos em ambiente hospitalar, seis foram por falha médica e poderiam ter sido evitadas. Um estudo do pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, Walter Mendes, que analisou 1.103 prontuários, encontrou uma taxa de incidência de 7,6% de evento adverso, que é qualquer dano não intencional que resulta em disfunção, prolongamento do tempo de internação ou morte do paciente. A proporção é maior do que a encontrada no estudo canadense que usou metodologia semelhante. No Canadá, de quatro a cada dez erros poderiam ter sido impedidos.
A pesquisa brasileira foi divulgada na sexta-feira (5 de setembro de 2008), durante o 1º Fórum de Erros em Medicina, no Instituto Nacional do Câncer (Inca). Mendes analisou 1.103 prontuários de 2003, em três hospitais universitários do Rio. Segundo ele, as fichas dos pacientes não são mais recentes porque se eles ainda estivessem internados as informações não poderiam ser analisadas. A incidência de eventos adversos ficou em 7,6%, porcentual similar ao encontrado em estudos internacionais em outros países. Mendes ressalta que nem todo imprevisto é um erro médico. Os enjôos provocados pela quimioterapia, por exemplo, são contratempos que não podem ser controlados e, portanto, não são considerados como falhas.
Essas situações imprevistas, entre as quais os erros, ocorrem principalmente na sala de cirurgia (36,2%), durante os procedimentos médicos (30,5%) e no diagnóstico (9,5%). Em seguida, vêm a obstetrícia (8,6%), problemas com medicamentos (5,7%) e fraturas (1,9%). Ao contrário do senso comum, a anestesia costuma ser um dos setores com menos índice de contratempos.
O estudo indica que nas enfermarias há mais probabilidade de ocorrerem erros (48,5%), seguida dos centros cirúrgicos (34,7%) e das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). "O erro mais comum é não lavar as mãos corretamente, o que facilita a propagação de infecção hospitalar", disse Mendes. Para ele, a maioria das falhas poderia ser evitada com medidas simples como essa. "Ainda temos um grave problema que não existe mais nos países desenvolvidos, que é a falta de profissionalismo na gestão", afirmou Mendes, criticando o fato de a direção de hospitais públicos ser um cargo de indicação política. O pesquisador enfatizou ainda que "os erros estão sendo subdimensionados". Para ele, o fato de os prontuários analisados pertencerem a hospitais universitários, que têm mais qualidade que a média de outras unidades do sistema de saúde, contribui para o esse dimensionamento.
Ele sugeriu algumas medidas simples, como a adoção a metas internacionais, que podem reduzir o número de falhas médicas e hospitalares. A principal delas é identificar o paciente corretamente, usando pulseiras e conferindo toda vez que for administrar medicamentos, sangue ou derivados. Em segundo lugar, deve-se melhorar a comunicação, registrando ordens verbais ou por telefone. Também deve-se usar um 'check list' antes de começar o procedimento cirúrgico, assegurando que o paciente, o procedimento e o local do corpo está correto, e outro para ver se os documentos e equipamentos necessários para a cirurgia estão de acordo e funcionando perfeitamente.
A pesquisa sobre eventos adversos foi a tese de doutorado do pesquisador, feita pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. Baseado nela, ele escreveu um artigo que está sendo avaliado para ser publicado em revistas internacionais.